Este ensaio literário propõe uma reflexão profunda sobre o papel da oralidade na construção da identidade literária do Zaire. Partindo de fundamentos históricos e culturais, e amparado por autores como Ngũgĩ wa Thiong’o, Mazrui e Lopes, este trabalho defende a oralidade como uma forma de escritura ancestral e um instrumento de resistência, transmissão e recriação cultural.
No contexto da literatura africana, a oralidade não é apenas uma forma de expressão, mas um fundamento epistemológico. Soyo e Mbanza Kongo representam um dos corações espirituais e históricos do povo Bakongo, a palavra falada possui um valor estético, pedagógico e mítico inegável. Como aponta Ngũgĩ wa Thiong’o (1986), “a palavra oral não apenas comunica, mas é também um modo de viver e construir realidade”.
A tradição literária do Zaire não nasceu nos livros. Ela germina nos batuques dos tambores, nos funerais acompanhados de cantos ancestrais, nas histórias contadas ao pé do fogo por avós que nunca aprenderam a escrever, mas que decoraram a vida em forma de provérbios. A oralidade é, pois, a espinha dorsal da expressão literária no Zaire.
No contexto dos Bakongo, a palavra tem poder. O “ntalu” (provérbio) e o “ngoma” (tambor) são formas narrativas que cumprem funções estéticas, educativas e espirituais. Estes elementos orais não só constroem identidades, mas preservam saberes milenares que resistem à colonialidade do saber e do ser. Assim, como podemos ver no trecho retirado do conto “um dia anímico”: “o cemitério, onde os reis repousam em silêncio, é mais que um lugar de descanso, é uma promessa de eternidade, uma terra onde o espírito e a memória se entrelaçam” (Ventura, 2024, p. 47).
Num território onde o rio Zaire desenha fronteiras e canta histórias nas suas margens, as tradições orais mantêm viva a cosmovisão do povo Bakongo. O griot, ou o ngoma, tem papel central: é ele quem, com voz firme e entoação cerimonial, perpetua os feitos dos reis, os mitos de origem, as parábolas educativas e as tragédias coletivas. É no contar que o Soyo sonha, ensina e cura. A palavra oral, passada de geração em geração, resiste ao tempo e adapta-se às transformações sociais, mantendo-se fiel às raízes: (…) Não tem horas a fome/ esse reincidente desejo / Nkaaka / bala kyame nani o didi kyo? (Nzadi, 2017, p. 20). Ou ainda no texto que segue: longe de mim não estás/ seu céu sou/ tu és (m)eu/ ao mesmo tempo corpo grudados/ estamos (Nzadi, 2017, p. 23).

A oralidade no Zaire é performativa. Não se trata apenas de narrar, mas de encarnar as histórias com gestos, danças, instrumentos e entoações. A musicalidade do kikongo, com suas tonalidades vibrantes, dá à narração um ritmo que não se lê, apenas se sente. Cada pausa carrega uma intenção. Cada metáfora abre portais para o invisível:
abre-se o poema nesta página ferida
para que se entenda o silêncio dos séculos
nas últimas chuvas. — não da pedra que falo
é o percorrer do comboio das coisas nuas grafadas
nestas hastes das clareiras negras repousadas à
leves ventas: mujimbava o jornal umoutra história à
velha panela com todos milongo. — dir-se-ia: o bolor
conduz um artigo definido. ó]
(Nkosi, 2025, p. 9).

Ou ainda no texto que segue:
(…) Gonçalo, confuso e sentindo um frio crescente em seu peito, murmurou: — Eu… este corpo é meu. Sinto meu coração bater. Mas suas palavras soaram vazias. E então, como em um pesadelo, uma paisagem grotesca surgiu diante de seus olhos. Ao redor dele, rostos desconhecidos emergiam das sombras, alguns afáveis, outros aterradores, com sorrisos tortos e olhares vazios. ventos gelados sopravam de direcções imprevisíveis, carregando aromas nauseantes, uma mistura de podridão e morte. Ele assistia, impotente, enquanto figuras humanas caminhavam como bois adestrados, com passos lentos e pesados, como quem caminha para o matadouro. Eles seguiam sem resistir, como veados que já caíram em armadilha e apenas aguardam o golpe final. Algumas diziam: “sou rico aqui em baixo, só de noite posso ser visualizado.” Outros eram ainda mais sinistras: “Aqui o pobre não morre, só apodrece.” (Ventura, 2024, p. 47).

A literatura Zairense não precisa necessariamente de papel para existir , ela respira na voz das mães, nos provérbios dos avôs, nos lamentos dos pescadores e nos cânticos das lavadeiras. A resistência à colonização também se fez através da oralidade. Quando a escrita era um privilégio imposto, a fala tornou-se escudo. Por isso, os contos, os ditos populares, as histórias de Nlemvo (personagem astuta do folclore Bakongo), os rituais e até as rezas de invocação aos antepassados carregam não só sabedoria, mas também crítica social e memória colectiva. Assim, a oralidade transforma-se em arquivo vivo de um povo que se recusa a esquecer. Como veremos abaixo o texto:
Kongo!
vata dya kinkulu ye kinfumu
twa sisilwa kwa nkulu nga ntangwa
(Zantoto, 2015, p. 47).
Atente-se ao modo como se intensifica o alcance significativo destes primeiros versos no seguinte passo de um poema do mesmo livro:
Ntoto
ah!… ntoto
ngeyi same
ngeyi yingwame
(Zantoto, 2015, p. 55).

Hoje, enquanto a modernidade e a globalização ameaçam silenciar muitas vozes tradicionais, resgatar e valorizar a oralidade soyoense é uma tarefa urgente e nobre. As novas gerações de escritores, artistas e pesquisadores têm o dever de traduzir a potência dessa palavra ancestral em novas linguagens, sejam elas literárias, cênicas, musicais ou tecnológicas.
Dizer que a oralidade é o pilar da literatura zairense é afirmar que sem ela não há base, nem casa, nem legado. A literatura do Zaire começa onde a palavra se torna ritmo, sabedoria e memória viva. E onde há voz, há continuidade.
