Há muito tempo, quando as árvores ainda falavam e os rios sussurravam segredos aos ouvidos dos mais velhos, existia uma aldeia chamada Mbanza Lemba, onde todos viviam em harmonia com os espíritos da terra. No centro da aldeia, havia um velho tambor sagrado chamado Nkumbi wa Lemba. Esse tambor era feito do tronco da árvore mais antiga da floresta e tinha pele de búfalo encantada. Diziam que ele não tocava com as mãos, mas com o coração de quem buscava justiça.
O guardião do tambor era o ancião Tata Ngoma, um velho cego que enxergava com a alma. Ele dizia: “Quem tocar o Nkumbi com verdade no peito, fará a aldeia ouvir a voz dos antepassados.”

Um dia, um jovem ambicioso chamado Kiala quis provar que era digno de liderar a aldeia. Foi até o tambor e o golpeou com força. Mas nenhum som saiu. A aldeia inteira riu dele. Entre os jovens guerreiros da aldeia, havia outro chamado Banza. Banza era um jovem de músculos largos e fala dura. Desde pequeno, acreditava que liderança era sinónimo de força e que respeito se ganhava pelo medo. Tinha vencido todas as lutas de iniciação, caçado a sua primeira pantera aos doze anos, e ostentava colares feitos com garras de animais selvagens. Mas, Banza não escutava. Desprezava os contos dos mais velhos, chamando-os de histórias para adormecer crianças. Quando soube que Kiala buscava sabedoria com Mama Luzingu, zombou dele publicamente:
— Enquanto tu cantas com os fantasmas, eu tomarei o que é meu — disse, olhando para o tambor.
Na calada da noite, aproximou-se do Nkumbi wa Lemba com um machado nas costas. Quis carregá-lo para longe da aldeia, mas o tambor tornou-se pesado como uma montanha. Nenhum músculo o movia. Com raiva, Banza golpeou a pele sagrada, e um som rouco, como lamento de alma perdida, ecoou pela aldeia.
Nesse momento, as folhas da árvore sagrada murcharam, e um corvo pousou no ombro de Tata Ngoma, que murmurou:
— A força sem escuta é surda como pedra. O tambor falou com silêncio.
Envergonhado, Kiala foi até a mata em busca de poder. Encontrou uma velha mulher chamada Mama Luzingu, que vivia com um leopardo falante. Ela era uma nganga (curandeira) respeitada por todos os espíritos. Kiala pediu sabedoria e coragem. Ela respondeu: “O tambor não escuta tua força, escuta tua intenção. Vai ao rio, pede perdão ao mundo, e volta como aprendiz, não como chefe.”
Kiala passou sete dias e sete noites no rio. Lá, sonhou com os antigos reis Kongo, que lhe ensinaram a canção da humildade. Na sétima noite, quando o luar banhava as pedras do rio, os reis apareceram. Um veio montado num elefante de fumaça, outro trazia estrelas nos olhos. Eles cantaram juntos:
— Quem manda sem ouvir, é surdo ao tambor.
— Quem aprende com o mundo, faz-se parte do som.
Kiala chorou. Chorou como nunca. Pela primeira vez, compreendeu que liderar era escutar, não impor. Quando voltou, foi até o tambor e, em silêncio, pousou a mão sobre ele. O Nkumbi soou, forte e claro, como trovão que acorda a terra. Todos ouviram, como se a voz viesse de dentro do peito:
— Quebram-se as correntes do orgulho.
— Escuta-se o sopro dos antigos.
— Quem planta sabedoria, colhe paz.
As árvores dançaram, os velhos sorriram, as crianças choraram sem saber o porquê. A aldeia inteira ficou em silêncio. Era como se os espíritos tivessem descido para sentar à roda do fogo. O tambor não era apenas um instrumento. Era a própria memória do povo, acordada pela verdade de Kiala. E naquele instante, ele não foi apenas um jovem. Tornou-se ponte entre mundos.
Desde então, Kiala não quis mais ser líder. Quis apenas ser guardião da sabedoria, como Tata Ngoma. Muitos anos depois, já com os cabelos grisalhos e os olhos cheios de tempo, Kiala sentou-se sob a grande árvore do terreiro. Chamou uma jovem curiosa chamada Cariango, de olhos atentos e pés ligeiros. Entregou-lhe uma pequena réplica do Nkumbi e disse:
— O tambor fala contigo, se escutares com o coração. Agora é tua vez de guardar o som dos antigos.
E assim o povo de Mbanza Lemba aprendeu: “Quem busca poder, perde o som. Quem busca verdade, faz o tambor falar.”
